segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Tenho fome da tua boca

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.

Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.

Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas

e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratue.

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Trecho de "Mel & Girassóis" em "Os Dragões não conhecem o paraíso" - Caio F.


Caminhavam assim, lembrando juntos letras de bossa-nova. Ela imitava Nara Leão: se-alguém-perguntar-por-mim. Ele, Dick Farney: pelas-manhãs-tu-és-a-vida-a-cantar. Nada sabiam de punks, darks, neons, cults, noirs. Eram tão antigos caminhando de mãos dadas naquela areia luminosa, macia de pisar quando os pés afundam nela lentamente. Carne de lagosta, creme, neve. Tão bom encontrar você, um cantinho, um violão.

Beijavam-se depois com certa ardência excessiva na porta do bangalô dela. Ou dele, quando ele bebia demais e não segurava, mas isso era tolerável, embora freqüente. Na boca, só uma três vezes. A lua era tão cheia, eles tão tímidos. De língua, uma única. Meio contraídos ― ele tinha uma ponte fixa do lado esquerdo superior; ela, um pino segurando um pré-molar do lado direito inferior. Ele a achava tão digna & superior, ela o achava tão elegante & respeitador. E pensavam: isto é uma historinha de férias, não leva a nada, passatempo. Se ele tivesse amigos por ali, diriam come essa mina logo, cê ta marcando, cara. Se ela tivesse amigas ali, brincariam de bruxas de Eastwick, discutiriam cheiros, volumes, investigariam saldos no talão de cheques. Sem ninguém, na real: ele a deixava ou ela o deixava. Era só, depois iam dormir. Então sonhavam um com o outro no escuro cinco estrelas de seus bangalôs com antena parabólica.

Ela deita de costas na cama, ele pensava, só de calcinhas. Ela tem seios pequenos que ele fecharia dentro das duas mãos, como quem segura duas maçãs daquelas verdinhas. Eu deito por cima dela, afundo a cabeça no seu ombro. Ela passa a mão direita por trás das minhas costas, me lambe na orelha, passa a mão nas minhas costas, vai descendo, arranha sem machucar, ela tem as unhas curtas, até em cima da minha bunda, então começa a descer a minha cueca, eu fico sentindo meu peito apertado contra os seios miúdos dela, enquanto ela continua a descer devagarinho a minha cueca e eu começo a sentir também a pressão do meu pau contra seu umbigo, até a cueca chegar aos joelhos e eu comprimo meu pau contra sua barriga, então ela diz gracinha-gracinha, e quando a cueca chega nos meus tornozelos eu a expulso para o meio do quarto com um pontapé e fico inteiro nu contra ela que está quase inteiramente nua também, porque vou descendo sua calcinha devagar enquanto digo: minha mãe, irmã, esposa, amiga, puta, namorada ― te quero.

Ele vem por cima de mim, ela pensava, enquanto o espero deitada na cama. Ele afunda em cima de mim como um bebê que quisesse mamar no meu seio que então empino, oferecendo o bico duro a ele. Ele passa a mão por trás das minhas costas que arqueio um pouco, para que ele possa me apertar pela cintura, enquanto me afundo mais no corpo dele, e desço suas cuecas devagar até que ele as jogue com um pontapé no meio do quarto ao mesmo tempo em que sua mão na minha cintura desceu minhas calcinhas até jogá-las no meio do quarto. Então nos apertamos inteiramente nus um contra o outro, enquanto ele entra em mim, tão macio, e ele me diz você é a mulher que eu sempre procurei na minha vida, e eu digo você é o homem que eu sempre procurei na minha vida, e nos afogamos um no outro, e nos babamos e lambuzamos da baba da boca e dos líquidos dos sexos um do outro enquanto digo: meu pai, irmão, marido, amigo, macho, príncipe encantado ― te quero.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Vivemos em tempos em que a tecnologia facilitaria a democracia direta,

porém, como o acesso à educação e à cultura em um nível abrangente o suficiente ainda está longe de se concretizar, sabemos que no momento atual se o povo pudesse decidir diretamente sobre as principais questões sociais e políticas, provavelmente seria decidido em sua maioria os retrocessos mais conservadores possíveis, entretanto, penso eu que no nível micropolítico o uso das tecnologias como uma forma de exercitar a democracia direta em grupos, ongs, conselhos, entidades de base, comunidades etc. é demasiado válido, mas é uma pena que mesmo nos lugares que se dizem mais democráticos ainda prevaleçam tomadas de decisões autoritárias...

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O cara mais punk que eu já conheci não tinha moicano,

não tinha coturno, não tinha piercing, não tinha banda, não tinha tatuagem, nem roupa rasgada, não tinha pose, nem caras-e-bocas, usava camisa de botão, calça jeans padrão, óculos quadrado e cabelo penteado, mas quando entrava na sala, parecia uma metralhadora revolucionária, com uma potência extraordinária, a cada palavra a gente mudava, se inquietava, questionava, hackeava o sistema e a cada aula a gente voltava pra casa com a vida transfigurada...

sábado, 14 de outubro de 2017

Deleuze e os signos.

Aquário: devir-minoritário
Peixes: bloco de sensações
Áries: modo de subjetivação capitalístico
Touro: plano de imanência
Gêmeos: diferença & repetição
Câncer: devir-mulher
Leão: ritornelo
Virgem: anti-édipo
Libra: molar & molecular
Escorpião: rizoma
Sagitário: esquizoanálise
Capricórnio: desterritorialização

sábado, 22 de julho de 2017

O engajamento tem os seus espaços de fuga,

os momentos em que percebemos que mesmo quem passa o dia postando, por exemplo, sobre o machismo do dia-a-dia, frequentemente nos bastidores da vida podem rir de piadas falocêntricas ou compartilhar ideias patriarcais, ou seja, qualquer ideia de uma militância purista e isenta de contradições estará equivocada, mas isso nem sempre é perceptível, pois às vezes as pessoas se mostram para se ocultarem...

sexta-feira, 19 de maio de 2017

"E despreza-se um homem que sente ciúme de sua mulher, porque isso testemunha que não a ama seriamente e que alimenta má opinião de si ou dela: digo que não a ama seriamente; pois, se nutrisse um verdadeiro amor por ela, não teria a menor inclinação para dela desconfiar; mas não é a ela que propriamente ama, mas somente o bem que imaginava consistir em sua posse exclusiva; e não temeria perder este bem, caso não julgasse que é indigno dele ou então que sua mulher é infiel. Além disso, esta paixão relaciona-se apenas a suspeitas e desconfianças, pois não é propriamente ser ciumento esforçar-se por evitar qualquer mal, quando se tem justo motivo de receá-lo" (Poderia ser Simone de Beauvoir, mas é René Descartes em "As Paixões da Alma" em 1649).

quinta-feira, 18 de maio de 2017

"Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e tão doloroso quanto impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força muito grande, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deveriam prezar porque os trata desumana e cruelmente." [Étienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, 1549].

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Entrevista com Antonio Candido:

"O senhor é socialista?"
"Ah, claro, inteiramente.
Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo.
E não é paradoxo.
O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo.
Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o
chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo.
Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser
explorado.
Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo... tudo isso.
Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças.
Coisas que hoje são banais.
Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias... tudo é conquista do socialismo."

Antonio Candido de Mello e Souza.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Ele pode estar olhando as suas fotos. Neste exato momento. Porque não? Passou-se muito tempo. Detalhes se perderam. E daí? Pode ser que ele faça todas as coisas que você faz. Escondida. Sem deixar rastro nem pistas. Talvez ele faça aquela cara de dengoso e sinta saudade do quanto você gostava disso. Ou percorra trajetos que eram seus, na tentativa de não deixar que você se disperse das lembranças. As boas. Por escolha ou fatalidade, pouco importa, ele pode pensar em você. Todos os dias. E ainda assim preferir o silêncio. Ele pode reler seus bilhetes, procurar o seu cheiro em outros cheiros. Ele pode ouvir as suas músicas, procurar a sua voz em outras vozes. Quem nos faz falta acerta o coração como um vento súbito que entra pela janela aberta. Não há escape. Talvez ele perceba que você faz falta. E diferença. De alguma forma, numa noite fria. Você não sabe. Ele pode ser o cara com quem passará aquele tão sonhado inverno em Paris. Talvez ele volte. Você confia nele? Ou não."

terça-feira, 21 de março de 2017

Parafraseando Brecht...

Primeiro levaram os negros
Mas como não era meu
O lugar de fala,
Não disse nada.

Depois levaram os gays
Mas como não era meu
O lugar de fala,
Não disse nada.

Em seguida, levaram as mulheres
Mas como não era meu
O lugar de fala,
Não disse nada.

Levaram também os miseráveis
Mas como não era meu
O lugar de fala,
Não disse nada.

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como é meu
O lugar de fala,
Ninguém disse nada...

segunda-feira, 20 de março de 2017

"Comida de Exu é tudo quanto a boca prova e come, mas bebida é uma só, a cachaça pura. Nas encruzilhadas Exu aguarda sentado sobre a noite para tornar o caminho mais difícil, o mais estreito e complicado, o mau caminho no dizer geral, pois Exu só quer saber de reinação. Exu mais reinador o de Vadinho." (Jorge Amado, Dona Flor e Seus Dois Maridos, 1966).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Tenho amigos gays que detestam serem chamados de "viado",

porque para eles é um termo sempre pejorativo independentemente do contexto, outros adoram, acham positivo, afirmativo. Assim como também o termo "sapatão" para algumas amigas lésbicas é auto-afirmação, para outras é depreciativo e preconceituoso. Quer dizer, às vezes alguns grupelhos ressignificam os termos para um novo padrão que agora é positivo para eles, mas nem sempre as pessoas envolvidas aceitam, absorvem e concordam.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Eu só consigo ficar com garotas-feministas,

o que é ótimo para rever os machismos nossos de cada dia que passam quase que imperceptíveis, mas o que me deixa pra baixo é ver que muitas vezes elas também têm atitudes machistas comigo, esperando um comportamento-padrão-héteronormativo que às vezes a gente só descobre quando termina...

domingo, 15 de janeiro de 2017

"- Tem certeza de que vai ficar bom? - perguntava Louise, com o rosto desfeito. 

- Vai ficar bom.

No cômodo, Rateau olhava para a tela, inteiramente branca, no centro da qual Jonas escrevera apenas, com letra muito pequena, uma palavra que se podia decifrar, mas não se podia saber, ao certo, se era solitário ou solidário."

(Albert Camus, O Exílio e o Reino, "Jonas ou o Artista do Trabalho", 1957).

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017