quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A Dança.

Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio 
ou flecha de cravos que propagam o fogo: 
te amo secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva 
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores, 
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo 
o apertado aroma que ascender da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, 
te amo diretamente sem problemas nem orgulho: 
assim te amo porque não sei amar de outra maneira, 

Se não assim deste modo em que não sou nem és 
tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha 
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho

Pablo Neruda.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

"Amar não é aceitar tudo. Aliás, onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor". (Vladimir Maiakovski).

domingo, 15 de dezembro de 2013

"Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que 'desse certo', caso contrário, deixaria de escrever. Pode ser". (Caio F.).

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Extremos da Paixão.

"Não, meu bem, não adianta bancar o distante
lá vem o amor nos dilacerar de novo...".

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.

Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.

No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira:compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó.O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo.E exigimos o terno do perecível, loucos.

Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolos em face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.

Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Não te amo mais,

Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis,
Tenho certeza que
Nada foi em vão,
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada,
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor,
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

Clarice Lispector*.

*Não sei se é mesmo da Clarice, mas sei que às vezes se lê de baixo para cima.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Simone de Beauvoir foi dispensada por Albert Camus,

Para ler ao som das feministas do Bulimia.

certamente porque ele era machista e sexista, já que ele disse que seria chato ficar com ela porque ela fala demais como uma intelectual¹ e ele, por ser homem, não aceitava que a mulher tivesse as mesmas capacidades que ele, como pensavam os gregos e como infelizmente ainda pensam muitos homens e também muitas mulheres, sem perceberem que o machismo é prejudicial para todo mundo, por isso Jean-Paul Sartre, que a chamava carinhosamente de "Castor", incentivou sempre Simone a ser quem ela quisesse ser, apoiando os seus trabalhos como escritora, como ela também fazia com ele, por isso seria difícil imaginar um ménage à trois entre eles e ela, como pensam algumas pessoas, enfim, Camus perdeu a oportunidade de ter o afeto de uma das mulheres mais lindas e, por falar nisso, levando em conta que aqui no Ceará há mais ou menos 200 mil mulheres a mais do que homens, proporcionalmente podemos dizer que por aqui há muita Simone de Beauvoir para pouco Sartre...


¹ “IMAGINE O QUE ELA DIRIA DEPOIS, NO TRAVESSEIRO. QUE CHATICE SERIA”, DISSE CAMUS, AO RECUSAR PROPOSTA SEXUAL DA FILOSOFA SIMONE DE BEAUVOIR.

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre.


Punk Rock Não É Só Pro Seu Namorado
[Bulimia]

O que te impede de lutar?!
O que te impede de falar?!
Pare de se esconder!
Você não é pior que ninguém!

Punk Rock não é só pro seu namorado!
Punk Rock não é só pro seu namorado!

Você sempre quis tocar!
Você sempre quis andar de skate!
Você que sempre quis, quis, quis!
Você não é um enfeite!

Punk Rock não é só pro seu namorado!
Punk Rock não é só pro seu namorado!

Faça o que tiver vontade!
Mostre o que você pensa!
Tenha a sua personalidade!
Não se esconda atrás de um homem!

Punk Rock não é só pro seu namorado!
Punk Rock não é só pro seu namorado!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

— E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)

— Ah. Porque eu sou tímida.

Rita Apoena.

domingo, 17 de novembro de 2013

Hannah Arendt estudava Kant desde os 14 anos,

Para ler ao som dos espanhóis da banda Sin Dios.

não sendo à toa que ela foi uma das maiores escritoras do século passado, uma genialidade como a dela não pode ser algo que aparece do dia para a noite, como se diz, mas certamente com muito esforço mesmo nas piores situações, já que ela enfrentou o nazismo e o totalitarismo comunista em constante combate contra o holocausto, colocando em sua escrita as situações-limites da condição humana a partir de momentos históricos que mostravam que a humanidade era capaz de destruir-se por inteira e destruir o planeta em uma fração de segundos e o ser humano, que buscava a sua potência criativa, desenvolveu a sua potência para a destruição e o terror, mostrando, a bem da verdade, a nossa fragilidade e que, diferentemente do que pretendia Kant, estamos imensamente longe de encontrarmos a paz perpétua, muito pelo contrário e, dentro desse contexto, Hannah enquanto mulher e de descendência judia, poderia ter se resignado e simplesmente ter aceitado a sua condição, porém, utilizou a sua filosofia também como forma de denúncia, combatendo o conformismo, a apatia e a indiferença, enquanto isso, o seu marido Heidegger, como uma espécie de Rei-Filósofo de Platão, era Reitor de uma Universidade nazista na Alemanha...

A filosofa alemã do século passado Hannah Arendt.


Alerta Antifascista
[Sin Dios]

La lucha contra el fascismo es la lucha por la libertad,
Contra el racismo, el sexismo, el capital y toda autoridad.
¡Alerta, alerta antifascista!
Suenan clarines llamando a la guerra otra vez.
La bestia parda ha despertado, no hay que dejarla crecer.
No permitamos que haya una victima más,
hagamos un frente todas las fuerzas
que la entierre de una vez.
¡Alerta,alerta, alerta antifascista!
¡Alerta,alerta, alerta antifascista!
Extrema derecha, poder paramilitar.
¿Quién los entrena? ¿Quién los financia?
Esos que sabes muy bien.
No pararemos frente a la agresión
debemos unirnos, pararles los pies,
quizás no sea tarde esta vez.
¡Alerta,alerta, alerta antifascista!
¡Alerta,alerta, alerta antifascista!
¡Alerta,alerta, alerta antifascista!
¡Alerta,alerta, alerta antifascista!
Organicemos la autodefensa,
vamos a por ellos allí donde estén.
¡Difusión antifascista!
No podemos esperar nada del Gobierno
que ampara y protege asesinos,
pues todas sabemos que el fascismo
es lacayo del capitalismo.
¡No! ¡No! ¡No pasarán!
¡No! ¡No! ¡No pasarán!
¡Alerta,alerta, alerta antifascista!
¡Alerta,alerta, alerta antifascista!

sábado, 16 de novembro de 2013

Lou Salomé era livre com os homens,

Para ler ao som das feministas do Bulimia.

o que certamente incomodava Nietzsche, que em Assim Falou Zaratustra vê o verdadeiro homem como uma criança, que quer brincar, e, para ele, cabe à mulher aprender a brincar com o homem, porque, as mulheres, em geral, entendem mais de crianças do que os homens; Lou Salomé talvez soubesse brincar, mas não quis entrar no jogo que Nietzsche queria, por isso talvez o seu Zaratustra (que foi escrito, de certa forma, para sublimar o seu amor não correspondido por Lou) entende a mulher como perigo e divertimento, que para ele são os prazeres que os homens mais gostam, mas agora quase dois séculos depois dos seus escritos, talvez possamos dizer que hoje em dia há muito Nietzsche para pouca Lou Salomé...

A alemã do século 19 Lou Andreas-Salomé.


Lute Pela Sua Vida

[Bulimia]

"Eu acho feio uma garota dar em cima de um cara
Não é preconceito, eu só acho feio!"

Nos empurraram uma tarefa,
nos reservaram um espaço
Nos colocaram num caminho,
mas não temos que seguir
Não importa se acham bonito
ou feio uma garota dar em cima de alguém
É a sua vida, não importa se acham bonito
ou feio uma garota exercer certas atividades
É a sua vida, lute por ela!

Não deixem que seus sonhos se tornem
lembranças de uma dona de casa passiva e submissa!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Os chatos de Sartre.

"Quando tinha trinta e dois anos, Jean-Paul Sartre sofreu com uma praga de chatos. Como contou a John Gearasi em 1971:


Depois que tomei mescalina, comecei a ver chatos ao meu redor o tempo todo. [Três ou quatro deles] me seguiam pelas ruas, até a sala de aula. Acostumei-me com eles. Acordava de manhã e dizia: 'Bom dia, meus pequenos, como passaram a noite?'. Falava com eles o tempo todo. Dizia: 'Certo, rapazes, vamos entrar na aula agora, então precisamos ficar quietos', e eles ficavam ali, ao redor da minha mesa, absolutamente quietos, até o sino tocar. [...] Os chatos ficaram comigo até o dia em que simplesmente me cansei e decidi que não iria mais prestar atenção neles".


Andrew Shaffer em Os Grandes Filósofos que fracassaram no amor, p. 157.


Os amantes do Café Flore: Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

No caminho, sem Maiakóvski.


Assim como o adulto
orgulhosamente destrói
a imagem do herói,
assim me distancio de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer,
não andarei ombro a ombro
com um poeta soviético.
Nunca li teus versos
mas tenho coragem também.

Tu não sabes,
não conheces melhor do que eu
a nova história.
Na primeira noite nós nos aproximaremos
e roubaremos uma flor do jardim deles.
E eles dirão muitas coisas.
Na segunda noite, já não nos esconderemos:
pisaremos nas flores, mataremos seu cão
e eles não dirão nada.

Até que um dia, o mais frágil de nós,
entra sozinho na casa deles,
rouba-lhes a luz e, mesmo
conhecendo a coragem deles,
arranca-os a voz da garganta
e eles já não poderão dizer nada.

Nos dias que correm,
a todos é dado repousar a cabeça,
alheia ao terror.
Os orgulhosos levantam a serviz;
e nós, que também não temos
pacto algum com os senhores do mundo,
não temeremos, não calaremos.
No barulho de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e construímos um levante.

E amanhã, se preciso,
diante do juiz os meus lábios
não calarão a verdade e
ninguém será capaz de me destruir
como um foco de germes.

Olho ao redor e o que vejo
e acabo por repetir são verdades.
Nossas crianças mal sabem dizer mãe
mas a propaganda não lhes poderá
destruir as suas consciências.

Não deixarei que me arrastem
à porta dos templos me pedindo
que aguarde até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.

Mas eu sei, mesmo se estiver
amedrontado a ponto de cegar,
que ela tem uma espada
a nos espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Não vamos ao campo,
mas os vemos ao nosso lado, nas ruas.
Ao tempo da colheita,
não os deixaremos roubar
até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder
e agora o teremos ao nosso favor.

Vamos defender os nossos lares,
nos rebelaremos contra a opressão
e não deixaremos que os soldados
marchem sobre nós.

Não calarei por temor,
nem aceito a condição
de falso democrata.

Nem rotularei meus gestos
com a palavra liberdade,
sem procurar esconder
a minha dor em um sorriso
diante de meus superiores.

Fora de mim,
com a potência
de apenas uma voz,
o coração grita - VERDADE!

(A minha resposta a Eduardo Alves da Costa).

domingo, 10 de novembro de 2013

sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor
pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava
no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus
como você me doía vezenquando eu vou ficar esperando
você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma
praça então os meus braços não vão ser suficientes para
abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta coisa
que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você
sem dizer nada só olhando olhando e pensando meu deus
ah meu deus como você me dói vezenquando

[Caio F. - trecho do livro O Ovo Apunhalado].

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Hoje Albert Camus faria 100 anos.


"Pelo fato de eu ser mulher - e, portanto, como era feudal, não inteiramente uma igual, -, acontecia-lhe confiar-se intimamente a mim: mandava-me ler passagens de seus caderninho de anotações, falava-me de seus problemas particulares. Voltava muitas vezes a um tema que o preocupava: seria preciso um dia escrever a verdade! O fato é que havia nele um fosso mais profundo que em muitos outros entre a vida e a obra. Quando saíamos juntos, bebendo, conversando, rindo, tarde da noite, ele era engraçado, cínico, meio canalha e muito gaulês em suas falas; confessava suas emoções, cedia aos seus impulsos; podia sentar-se na neve, à beira de uma calçada às duas da manhã, e meditar pateticamente sobre o amor. 'É preciso escolher: o amor ou dura ou queima; o drama é que não pode durar e queimar ao mesmo tempo'. Eu gostava do 'ardor' com o qual ele se entregava à vida e aos prazeres [...]".

[Simone de Beauvoir em Force of Circunstance apud Camus e Sartre: o polêmico fim de uma amizade no pós-guerra - Ronald Aronson].

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Engajamento sem responsabilidade é coisa de poser,

não adianta simplesmente reclamar da política e dos políticos quanto à resolução dos problemas sociais e não se organizar minimamente de forma coletiva na prática cotidiana, pois é fácil na esfera do discurso reproduzir o combate alheio e incentivar a violência por trás de um computador ou um birô, mas assumir as posições colocadas e ir para a prática para além da esfera do discurso é muito mais difícil, exige grandes responsabilidades que nem sempre quem reclama das injustiças é capaz de minimamente assumir, é como incentivar as pessoas a pegar em armas sem nem sequer saber atirar, como geralmente fazem os "radicais chiques" e o engajamento não pode se resumir apenas a ir às ruas segurar cartazes e enfrentar os militares e postar na internet ou aparecer na TV, a revolução do cotidiano é praticamente invisível, a responsabilidade exige muito mais o anonimato, até porque quando se aparece demais torna-se muito mais estrelismo do que engajamento...

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Os Black Blocs deixaram os militares mais fortes,


mais bem preparados, mais bem organizados, melhor estruturados, melhor equipados e mais violentos, na medida em que a polícia para cumprir certas ordens necessita de certas desculpas para mostrar a sua força, o Black Block abre espaço para que o espetáculos dos militares se manifeste, ainda que de maneira até certo ponto comedida, quando sabemos que o poder militar brasileiro é muito maior do que temos visto nas ruas, pois desde a Ditadura Militar sabemos que bombas de gás e balas de borracha são o de menos quando eles verdadeiramente querem mostrar do que são capazes contra as manifestações e as chamadas vanguardas revolucionárias certamente não devem estar preparadas para uma reação militar de verdade e o resto do povo, ainda que oprimido diariamente pela polícia, ainda está longe de estar organizado contra os militares para enfrentar uma guerra civil, sem contar que há muitas pessoas que apoiam os Black Blocs, mas a maioria nem sequer esteve nas ruas junto deles...

sábado, 2 de novembro de 2013

A noite/1.

Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.

Eduardo Galeano - Mulheres.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

"As palavras proferidas pelo coração não tem língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler"

José Saramago - O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

sábado, 26 de outubro de 2013

O Homem Congrega Todas as Espécies de Animais.


Para ler ao som do carioca Chico Buarque.

Há tão diversas espécies de homens como há diversas espécies de animais, e os homens são, em relação aos outros homens, o que as diferentes espécies de animais são entre si e em relação umas às outras. Quantos homens não vivem do sangue e da vida dos inocentes, uns como tigres, sempre ferozes e sempre cruéis, outros como leões, mantendo alguma aparência de generosidade, outros como ursos grosseiros e ávidos, outros como lobos arrebatadores e impiedosos, outros ainda como raposas, que vivem de habilidades e cujo ofício é enganar! 

Quantos homens não se parecem com os cães! Destroem a sua espécie; caçam para o prazer de quem os alimenta; uns andam sempre atrás do dono; outros guardam-lhes a casa. Há lebréus de trela que vivem do seu mérito, que se destinam à guerra e possuem uma coragem cheia de nobreza, mas há também dogues irascíveis, cuja única qualidade é a fúria; há cães mais ou menos inúteis, que ladram frequentemente e por vezes mordem, e há até cães de jardineiro. Há macacos e macacas que agradam pelas suas maneiras, que têm espírito e que fazem sempre mal. Há pavões que só têm beleza, que desagradam pelo seu canto e que destroem os lugares que habitam.

Há pássaros que não se recomendam senão pela sua plumagem ou pelas suas cores. Quantos papagaios falam sem cessar, sem nunca compreender o que dizem; quantas pegas e gralhas são domesticadas para roubar; quantas aves predadoras vivem da rapina; quantas espécies de animais agradáveis e tranquilas servem apenas para alimentar outros animais! 

Há gatos, sempre à espreita, maliciosos e infiéis, que deslizam com patas de veludo; há víboras de língua venenosa, sendo o resto útil; há aranhas, moscas, percevejos e pulgas, que são sempre incómodos e insuportáveis; há sapos, que nos horrorizam e que têm peçonha; há mochos, que temem a luz. Quantos animais não vivem sob a terra para se manter! Quantos cavalos, que utilizamos para tantos fins, não abandonamos quando já não servem mais; quantos bois não trabalham uma vida inteira para enriquecer aqueles que lhes impõem o jugo: as cigarras, que passam a vida a cantar; as lebres, que têm medo de tudo; coelhos, que se espantam e acalmam num instante; porcos, que vivem na crápula e na imundície; patos mansos, que atraiçoam os seus congéneres, atraindo-os a armadilhas, corvos e abutres, que vivem apenas de podridão e de cadáveres! Quantas aves migratórias não voam tantas vezes de um extremo ao outro do mundo e se expõem a tantos perigos para sobreviver! Quantas andorinhas, sempre atrás do bom tempo; quantos escaravelhos, inadvertidos e sem objectivo; quantas borboletas à procura do logo que as queima! Quantas abelhas, que respeitam o seu chefe e vivem com tanta ordem e trabalho! Quantos zangãos, vagabundos e mandriões, não procuram estabelecer-se à custa das abelhas! Quantas formigas, cuja previdência e economia provêem a todas as suas necessidades! Quantos crocodilos fingem queixar-se para melhor devorar aqueles que são sensíveis às suas queixas! E quantos animais se submetem porque ignoram a sua força! 

Todas estas qualidades se encontram no homem e ele procede, em relação aos outros homens, como os animais de que acabamos de falar procedem entre si. 


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

"(...) Meu Deus, e dizer que a vida é isso, que é por isso que a gente se veste, se lava, se faz bonita e que todos os romances são escritos, e que se pensa nisso o tempo todo e finalmente eis a que se reduz: vai-se para um quarto com um homem que quase nos sufoca e que no fim nos deixa o ventre molhado. (...)". [Jean-Paul Sartre, "Intimidade", em "O Muro"].

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

"Amor livre? Por acaso o amor pode ser outra coisa mais que não livre? Sim, o amor é livre e não pode crescer em nenhum outro ambiente. Em liberdade, se entrega sem reservas, com abundância, completamente. Todas as leis e decretos, todos os tribunais do mundo não poderão arrancar-lhe do solo em que fincou suas raízes. O amor não necessita de proteção, porque ele se protege a si mesmo". [Emma Goldman].

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

Leminski.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Higiene é um valor indígena

Para ler ao som dos capixabas do Conjunto Musical Merda.

que de certa forma herdamos, como, por exemplo, o hábito de tomar muitos banhos e limpar o corpo para evitar doenças, além dos inúmeros remédios e vacinas naturais que também fazem parte desse cuidado de si, que é também um cuidar dos outros na medida em que em situações como as de pestes, por exemplo, o cuidado para não disseminar o que pode destruir a própria tribo mostra um senso coletivo que em tribos urbanas de descendentes de índios também percebemos hábitos higiênicos mesmo em piores situações econômicas, o que faz com que as comunidades continuem resistindo em várias favelas nas situações mais precárias de saneamento básico, sem água, sem energia, sem gás, sem esgoto, sem banheiros, mas ainda assim repassando o cuidado de si nos inconscientes coletivos de quem possui raízes indígenas em sua descendência, diferentemente dos europeus, que colonizaram as Américas e a África, mas que não gostam sequer de banhos de mar...

Frankito Lopes, o índio apaixonado.

sábado, 19 de outubro de 2013

Foda-se o preconceito linguístico,


Para ler ao som do baiano Tom Zé.

a língua é lânguida, fluida, múltipla, plural, dinâmica, linguagem é mandinga, malandragem, ginga, esquiva, paranauê, giro, arrodeio, drible, desvio, é ida, vinda, volta, não é um cristal, uma rocha, um castelo, uma floresta, um quartel, uma prisão, é um campo aberto, uma floresta, uma praia, um deserto, um rio, um riacho, uma cachoeira, um açude, uma onda, um mergulho, é um labirinto, uma encruzilhada, uma selva, é híbrida, poligrafa, polissêmica, diversa, controversa, é lenta, é rápida, é incompleta, é infinita, limitada, ampla, sublime, áspera, leve, lisa, frouxa, não é uma mônada, uma bolha, nem uma cela, é arte, é história, é religião, é ciência, é política, é morte, é vida, é fátua, é acaso, é sentimento, pulsão, tesão...


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Anarcopoitas do mundo, desuni-vos! (MANIFESTO DO PARTIDO POITA CEARENSE).

MANIFESTO DO PARTIDO POITA CEARENSE.

Anarcopoitas desunidos jamais serão vencidos. Muito pelo contrário, a nossa desunião faz a nossa força. Cada qual segue a singularidade que sente, pois todo proselitismo tende ao totalitarismo. Não somos mais conscientes, talvez apenas um pouco mais lúcidos, em certo sentido. Não acatamos os extremos: nem a realpolitik, nem a irrealpolitik. Pensemos todos iguais e seremos alvos fáceis, previsíveis, sem criatividade, anacrônicos etc. 

Poitar pode agregar, mas também pode desagregar. Não adianta ser anarcopoita e poitar o porteiro; não somos rebeldes sem causa, ainda fazemos corte de classe; não estamos isolados em uma bolha; sabemos que poitagem é malandragem, não é pilantragem, é paranauê, pois malandro demais, vira bicho; A nossa estética não é estática, mas ética. Combatemos o realismo político porque enquanto artistas da poitagem, ressaltamos a pluralidade; Pior do que falsos moralistas, são os falsos imoralistas; Nem tudo que é alternativo, é alternativo; Poitas do mundo, uni-vos!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ela era

a Cinderela
à noite inteira,
mas eu preferia
a Gata Borralheira,
que não tem frescura,
que não tem besteira...


domingo, 13 de outubro de 2013

É preciso ter demasiada fé na razão

para acreditar em um sistema que seja capaz de dar conta de todos os aspectos da política a ponto de conseguir definir, por exemplo, o que é o Estado, pois sempre há algum aspecto que pode escapar da compreensão de algo tão complexo como a diversidade de sociabilidades envolvendo a religião, a economia, as intersubjetividades, a antropologia, a filosofia, o direito, o acaso, as paixões, os jogos etc., e é neste sentido que nenhum sistema político, por mais totalizante que seja, pode dar conta do que flui cotidianamente como a política em seu sentido mais amplo, pois a realidade sempre escapa às teorias e, neste sentido, as teorias sobre o Estado sempre tendem a ser limitadas, pois a política, em certos aspectos, é guiada muito mais pelo coração do que pela racionalidade e os grandes sistemas lógicos não podem dar conta do real, por mais presunção que se tenha sobre a realidade, além do que, quando o mundo concreto contradiz as teorias, o real é que passa a ser acusado de estar errado, quando, a bem da verdade, há sempre um aspecto limitado de toda teoria isolada que exclui outros aspectos que o racionalismo exagerado das teorias políticas nunca poderão abranger, na medida em que pretendem a partir de uma uniletariedade da razão (política) fomentar algo que não leva em consideração outras formas de se fazer política para além dos mesmos moldes que se fecharam como se fossem únicos, sobretudo, levando sempre em consideração a forma eurocêntrica de se fazer política, com repetições de modelos que geralmente não incluem as formas africanas ou latinas de se fazer política, por exemplo, como se não fizessem também parte da história mundial, por isso acredito que faz-se sempre necessário repensarmos os nossos conceitos políticos para além dos moldes pré-fabricados pela tradicional e conservadora racionalidade europeia...

sábado, 12 de outubro de 2013

A Política não é o lugar da Emancipação.

Tudo abala-se com o tempo, por isso a política é um jogo de caprichos que não pode ser fundamentado para sempre. A política não é o lugar do melhoramento do mundo, a ação humana não pode reverter o trágico da política. Diante da falta de fundamento da política, a vida social humana, em certo sentido, é absurda. A política não é o lugar da emancipação, do melhoramento do mundo, mas apenas uma espécie de diminuição dos efeitos danosos, recusando o ajuntamento do mal no mundo, reconhecendo os seus limites. Não há como gerenciar o acaso, o mal está dado e não pode ser cessado definitivamente, a contingência sempre se afirma. É preciso saber conduzir-se diante da incerteza, do acaso, já que não se pode dominá-lo. Quando se joga dados, o acaso está sempre presente, a única certeza é sempre a incerteza -.

*Nota à luz de Blaise Pascal.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Dizem que a religião é o ópio do povo,

Para ler ao som dos capixabas do Conjunto Musical Merda.

mas quando fui convidado a tomar o chá de ayahuasca em uma praia aqui do Ceará, por acaso cheguei na hora em que acontecia uma reunião dos moradores para discutir e solucionar os problemas da cidade em vários aspectos, contrapondo-se, sobretudo, a projetos bizarros do Governo do Estado em um fórum aberto que algumas das principais lideranças que cuidavam das lutas eram pessoas do Santo Daime que lutam há dezenas de anos naquele lugar, apesar de alguns nem serem brasileiros, assim como tantas outras que encontrei no caminho e que durante o preparo do chá e as outras vivências, dialogaram comigo sobre as lutas coletivas e pessoais do dia-a-dia, inclusive para além do simples humanismo, demonstrando sempre um cuidado com a natureza e ainda que sejam poucas as iniciativas, são grandes, como o desenvolvimento da permacultura, por exemplo, dentre outras coisas, ou seja, se para alguns europeus a religião é sinônimo de alienação, aqui na América-Latina eu vejo outras formas de lutas através das religiões no qual lutar não está dissociado da prática religiosa e ainda que não sejam todos, o pouco contato que tive me foi suficiente para não mais julgar as religiões do ponto de vista eurocêntrico, até porque muitas vezes os materialistas europeus são muito menos engajados nas lutas coletivas, perdendo-se em um individualismo muito mais perigoso do que a alienação religiosa, neste sentido vejo como relativo os conceitos sobre as religiões tanto quanto as religiões, mas para mim isso acaba sendo o menos importante, pois não me importa qual o credo ou a falta de credo que se tenha, e sim as práticas cotidianas, que para mim são muito mais critério de verdade do que qualquer teoria religiosa ou científica.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Quando a conheci

pensei que ela fosse ser
a minha Lou Salomé
E que o nosso relacionamento
ia ser do tipo Simone de Beauvoir
Mas o que rolou foi muito mais
do tipo Hannah Arendt
Além disso, ela era
chata como Xantipa
e foi minha angústia
como Regine Olsen
Mas pelo menos
não fui como Kant,
que não comia ninguém...


terça-feira, 8 de outubro de 2013

É muito fácil dizer que a mídia mente,


Para ler ao som dos cariocas do Ponto de Equilíbrio.

mas organizar um jornal popular, uma rádio comunitária, um canal alternativo na internet, uma página no Facebook, poucos tem a audácia de fazer, vemos muitas pessoas reclamando todos os dias e poucas realmente organizando-se cotidianamente, colocando as suas internetes de alta velocidade a serviço de algo construtivo e coletivo, criando coletivos ou unindo-se a coletivos já existentes e resistentes, usando toda a criatividade ao atacar a grande mídia para construir outra mídia, com todo o conhecimento, até para se perceber que não é tão simples repassar informações todos os dias de forma "imparcial" e com a responsabilidade de arriscar assinar o que se faz, pois criticar os meios de comunicação por não denunciarem imediatamente as pautas que colocamos na internet é simples, mas agir com a responsabilidade de apurar os fatos e repassar para milhares de pessoas instantaneamente é muito mais difícil do que se pensa, não é como um clique no mouse ou uma zapiada no controle remoto ou como mudar de frequência de rádio, exige um preparo diário que nem sempre, por maior a formação e a informação que quem faz a notícia tenha, garante que as matérias sejam como exige quem irá vê-las, o peso da responsabilidade para com a palavra e para com a imagem é bem maior para os grandes formadores de opinião do que para pessoas comuns que não agem diretamente com as mídias como poderiam e, também por conta disso, acabam julgando muito e fazendo muito pouco...

#GloboMente

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

"E, se a estrita monogamia é o ápice da virtude,

então a palma deve ser dada à tênia solitária que, em cada um dos seus cinquenta a duzentos anéis, possui um aparelho sexual masculino e feminino completo, e passa a vida inteira coabitando consigo mesma em cada um desses anéis reprodutores." Engels, 1981.

domingo, 6 de outubro de 2013

"O amor verdadeiro não é uma escolha nem uma liberdade.

O coração, sobretudo o coração, não é livre. É o inevitável e o reconhecimento do inevitável. E ele, na verdade, nunca amara com todo o coração a não ser o inevitável". (Albert Camus, O Primeiro Homem, 1960).

sábado, 5 de outubro de 2013

me xinga, me grita,

me bate, me late
me morte, me belisca,
me arranha, me revista,
me rende, me prende,
me esfria, me esquenta,
me solta, me sente...

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Válter Di Láscio.

Você quer comprar minha poesia? Como você compra esse negócio que você vai jogar no vaso sanitário daqui a pouco e não compra minha poesia? Você sabe o que é morar na rua?! Você não sabe o que é morar na rua! O dinheiro é meu ou é seu? Você sabe quem é esse cara? Subcomandante Marcos? Que camisa é essa? Faça a sua revolução? Honre a camisa que você usa cara. Você sabe o peso dessa camisa? Eu vi um cara que tinha um "A" na mão e perguntei: você sabe o peso que você leva na mão cara? E que peso! Eles não me deixam vender minha poesia. Onde vou vender? No show do Calcinha Preta no Parque do Vaqueiro? Ah, vai tomar no cu! Se eu for gay ou não, é da sua conta? Você tá com ciúmes? Eu não quero mais o seu dinheiro, seu mão de vaca! Eu não preciso disto! A minha mãe? A minha mãe tá junto com a tua num puteiro filho da puta! Me respeita, por favor. De coração... sai de perto de mim. O meu pé é meu ou é seu? Essa cachaça é minha ou é sua? Quem comprou? Por que você não se preocupa com a sua vida? Vai tomar no cu! Eles querem que eu diga isso pra eles, mas eu não vou dizer. Cala a boca, por favor. Por que você quer falar comigo agora? Quando eu quis você ficou calada. O negócio é sexo, drogas e rock'n'roll! No lançamento do meu livro vou fazer uma festa que terá o exame pró-álcool na entrada. Só entra quem estiver chapado! Um blues e um rock'n'roll acústico! Eu gosto de música de qualidade. Você sabe onde eu moro? Sim, no terminal. Faz tanto tempo que eu nem sento em uma cama. Meu nome? Pode me chamar como lhe convir. Quer comer uma flor também? É um pouco amarga. Quer colocar álcool aqui, por favor? Bebe isso! Eu não tenho fogo. Ei cigarreiro! Vai tomar no cu! Você é um burguês! Quando você chegar em casa, você tem a sua caminha, a sua comidinha... você sabe o que é morar na rua? Você acha que eu vendo poesia por que eu acho bonitinha? Você acha que eu gosto dessa bermuda? Acha que eu ando com essa bermuda suja por que tá na moda? Eu odeio essa bermuda, mas eu só tenho ela! Vai se foder seu pequeno-burguês!

Março/2004.

Válter Di Láscio no Cantinho da Filosofia da UECE.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

"Futebol é inteligência em movimento". (Albert Camus).


Albert Camus i el futebol.

Para ler ao som dos paulistas do Ultraje a Rigor.

"O melhor que aprendi sobre ética e bons costumes devo ao futebol. Este, mais do que um esporte, é uma analogia de vida e, - assim, é um grande tema para as ciências humanas, inclusive para o direito". (Albert Camus).

O franco-argelino Albert Camus como goleiro do Racing, de Argel em 1930.


"O futebol é uma via de acesso a temas de alto valor, como a inclusão social e a desigualdade de oportunidades". (Albert Camus).

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Para quem ainda vier a me amar.

Quero dizer que te amo só de amor. Sem ideias, palavras, pensamentos. Quero fazer que te amo só de amor. Com sentimentos, sentidos, emoções. Quero curtir que te amo só de amor. Olho no olho, cara a cara, corpo a corpo. Quero querer que te amo só de amor.

São sombras as palavras no papel. Claro-escuros projetados pelo amor, dos delírios e dos mistérios do prazer. Apenas sombras as palavras no papel. 

Ser-não-ser refratados pelo amor no sexo e nos sonhos dos amantes. Fátuas sombras as palavras no papel. 
Meu amor te escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen. São versos que pulsam, gemem e fecundam.

Meu poema se encanta feito o amor dos bichos livres às urgências dos cios e que jogam, brincam, cantam e dançam fazendo o amor como faço o poema.

Quero da vida as claras superfícies onde terminam e começam meus amores. Eu te sinto na pele, não no coração. Quero do amor as tenras superfícies onde a vida é lírica porque telúrica, onde sou épico porque ébrio e lúbrico. Quero genitais todas as nossas superfícies.

Não há limites para o prazer, meu grande amor, mas virá sempre antes, não depois da excitação. Meu grande amor, o infinito é um recomeço. Não há limites para se viver um grande amor. Mas só te amo porque me dás o gozo e não gozo mais porque eu te amo. Não há limites para o fim de um grande amor. 

Nossa nudez, juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as mucosas. A nudez a dois não acontece nunca, porque nos vestimos um com o corpo do outro, para inventar deuses na solidão do nós. Por isso a nudez, no amor, não satisfaz nunca. 

Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos completar. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários.

O amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O Materialismo Dialético é uma ideia que os europeus inventaram

Para ler ao som dos paulistas do ABC Garotos Podres.

e que nem eles parecem acreditar mais, mas que os brasileiros fazem questão de insistir, talvez porque brasileiros querem ser mais eurocêntricos do que os eurocêntricos, o que não quer dizer que os neo-hegelianos de esquerda não devam ser mais lidos e levados em consideração, muito menos excluídos, mas que, a bem da verdade, Marx não é mais a última Coca-Cola do deserto, com o perdão do trocadilho capitalista, pois no fundo nem sequer os marx[i]istas ou marxianos e marxiólogos o levam mais tão a sério, além disso, parafraseando Pascal, "o coração tem razões que o Materialismo Dialético não conhece".

Karl Marx e Engels.

domingo, 29 de setembro de 2013

Poliamor Livre.

Ultimamente eu tenho visto de perto o quanto a monogamia é uma mentira e fico pensando em Poliamor. Porém, Poliamor não é algo que a gente escolhe, acontece. E eu prefiro assumir para o mundo, mesmo com todas as consequências, boas ou ruins. Mas só me envolvo nesse tipo de relacionamento quando todas as pessoas envolvidas estão cientes do que está acontecendo, pois eu acho que a verdade ainda é o que temos de melhor para compartilhar.

Acho que não é preciso convencer ninguém de nada, pois o Amor Livre não é uma religião que está precisando de novos adeptos, eu só tenho batido nessa tecla porque tenho me incomodado um bocado com algumas coisas. A monogamia talvez seja um caminho mais seguro, mas é menos profundo. E como dizia o MiLLôR: "A monogamia é a capacidade de ser infiel à mesma pessoa durante a vida inteira".

Imagem meramente ilustrativa.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Diz-simula-ação.

um ateu
disfarçado
de deus

um geek
disfarçado
de hippie

um junkie
disfarçado
de punk

um otário
disfarçado
de libertário

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Re-fluxo.

de manhã sou de deus
de tarde sou de zeus
e à noite sou ateu

de manhã sou cristão
de tarde sou pagão
e à noite sou são

de manhã sou funk
de tarde sou punk
e à noite sou junkie

de manhã sou geek
de tarde sou hippie
e à noite sou chique

de manhã sou canceriano
de tarde sou geminiano
e à noite sou escorpiano

de manhã sou de jah
de tarde sou de alá
e à noite sou de orixá

de manhã sou altruísta
de tarde sou egoísta
e à noite sou niilista

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Dancem, filósofos, dancem!

Para ler ao som dos britânicos do Motörhead.

Por que não existe uma palavra apenas para descrever o prazer de dançar? A dança pertence ao reino do inefável, daquilo que os filósofos não sabem explicar porque não sabem dançar. Nietzsche dizia que não acreditava em um deus que não dance, nós não acreditamos em um filósofo que não dance. Filósofos que não dançam: isso é sintomático. Ao dançar, não se pode dissimular quem se é ou o que se é: o que dissimulamos com as palavras, confessamos com o corpo. Nesse sentido, como se pode falar daquilo que é sem se deixar ser quem se é? Mire-veja uma criança dançando: elas nos mostram como realmente somos sem a rigidez do gênero, sem o preconceito corporal-linguístico, sem as falsas ideias de liberdade. Mas a filosofia não dança como uma criança porque os filósofos não dançam. Dancem filósofos, dancem! No passinho do reggae, na roda de pogo, no compasso da ciranda, chorando no brega, no forró abufelado... partam todas as couraças dançando lambada! Quem não dança, fica enrijecido e corpos enrijecidos produzem filosofias enrijecidas e filosofias enrijecidas não produzem conhecimento, nem sabedoria. E sem sabedoria não há Filosofia! Parafraseando Emma Goldman: se eu não posso dançar, não é minha filosofia!

A lituana anarquista Emma Goldman.

Documentário "Dance, monkeys, dance!"

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Em-Vão.

Vão-se os anéis,
Ficam os dedos
E os receios. 

Vão-se os sutiãs,
Ficam os seios
E os beijos. 

Vão-se os perfumes,
Ficam os cheiros
E os desejos. 

Vão-se os amores,
Ficam os medos
E os segredos.

domingo, 22 de setembro de 2013

Vamos acabar com o tráfico!

Para ler ao som do jamaicano Peter Tosh.

Aqui no Nordeste
não se devia criar gado,
no dia que o canhamo
voltar a ser legalizado,
nós estaremos salvos,
vamos criar sapatos,
papel, casas e barcos,
cordas e livros mais baratos
feitos da fibra do mato
e além de tudo isso
vamos acabar com o tráfico!

Carlos Latuff.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Esquerda, Direita, volver!

Documentário "Com Vandalismo".

Os jargões políticos eurocêntricos dividem o mundo político simplificando tudo apenas em "direita" e "esquerda" em um binarismo sectário, mas particularmente ainda acredito mais na multiplicidade e procuro entender os fatos políticos de várias formas, incluindo o máximo de pontos de vista possíveis, como dos anarquistas, dos cristãos, dos hippies, dos poetas, dos bêbados, dos drogados, dos administradores, dos psicólogos, dos educadores sociais, dos anarco-punks etc, também a partir das paixões, das contingências, dos acasos, dos detalhes, sem fixar e cristalizar tudo em apenas um ponto de vista para não excluir a alteridade, como no método pascaliano do século 17. Por influência do argelino Albert Camus, não tenho tanta "fé" na razão para acreditar em um sistema qualquer, seja político, filosófico ou religioso e nem tanta presunção como nos sistemas totalizantes, mas nessa estrutura binária que divide o mundo político apenas em dois sistemas, entendo quando um sociólogo diz que a extrema esquerda faz tudo o que não deveria ser feito, mas que ela tem um papel muito importante que é de não deixar a esquerda enveredar para a direita, com vandalismo, com violência, com radicalismos, com quebra-quebra, com pichações, com pedradas, incêndios, pauladas etc, pois, nessa "dialética do senhor e do escravo", entendo que os escravos cansaram de ficar de joelho e se insurgem da forma que encontram e que nenhum moralismo de gabinete poderá deter. Entretanto, entendo também que o militarismo da extrema esquerda se aproveitará das revoltas para impor as suas ideologias e verdades de vanguarda (principalmente os que não se dizem de vanguarda) e neste sentido penso que é preciso encontrar um equilíbrio, pois os sistemas políticos mais extremos sempre tendem para a tirania e o fascismo. Enquanto as ideias dos colonizadores fomentarem o nosso pensamento de colonizados, não creio que haverão grandes mudanças nas formas de se fazer política longe da Europa e dos Estados Unidos. Não acho interessante simplesmente excluir o pensamento europeu, mas sim o eurocentrismo, então entendo que se faz necessário pensarmos outras formas de nos organizarmos politicamente, levando em conta, por exemplo, as nossas heranças africanas e indígenas, deixando os nossos espíritos revoltados livres para destruir quando for preciso, mas principalmente para construir a todo instante no cotidiano...